Ainda o tempo não lhe tinha amadurecido o corpo e já ele lhe torneava a carne nua com mãos de homem feito.
Reparara nela quando um dia voltava do trabalho com o corpo a cheirar a terra e a boca a saber a cervejas. Ela, bonecas arrumadas aos dez anos, primeira menstruação aos doze, peito firme aos treze, escola abandonada no sétimo ano, olhos de mel, lábios de ameixa, cabelo dado ao vento, rosto da cor do trigo maduro, formas redondas, vestido curto, pernas de seda, tinha dezasseis anos e vinha das compras. Quando ela passou na rua como uma borboleta com as asas em brasa, ele acendeu um cigarro e ateou tabaco e desejo. Nesse primeiro dia nada lhe disse, só pensou o que os homens que nunca leram Platão pensam quando se excitam. Bovino, marcou-a logo ali com o ferrete da volúpia.
No segundo dia, quando se cruzaram no passeio estreito, ele disse-lhe coisas que os homens que nunca leram Eugénio de Andrade dizem às mulheres e que algumas mulheres preferem escutar a escutar palavras de Eugénio de Andrade. Ela não baixou os olhos nem teve vergonha das palavras que se metem logo por dentro da roupa. Pelo contrário, pôs mel na colher gulosa que ele trazia no olhar.
Estava farta de estar em casa. Tirando as telenovelas, não havia mais nenhum sonho dentro daquelas quatro paredes. Queria fugir às proibições dos pais, à loiça, ao ferro de engomar, à roupa comprada nas bancas da feira. Queria ter automóvel e passar junto das esplanadas de vidros abertos e rádio ligado, queria ir ao Algarve, à Expo 98, ir ao restaurante e pedir sobremesa. E além disso, já se sentia mulher que chegasse para se entregar a um homem calejado.
E assim, pouco tempo depois, num sábado à noite, a Primavera da verdura dela foi engolida pelo suor do Verão dele. Sem mãos dadas, sem poesia, sem cinema, sem dia dos namorados. Debaixo do peito dele passou logo de flor a fruto, de ovo a pássaro, de erva a pasto, de orvalho a pó. Talvez até o amasse – como se ama o carcereiro que nos abre a porta da prisão.
Quando deixou a casa dos pais já ia grávida de cinco meses e a Expo já tinha acabado. Vivia agora em duas húmidas assoalhadas numa das pontas da vila e pouco saía, a não ser para ir às compras e às consultas ao centro de saúde. No dia em que a filha nasceu, Albufeira era ainda uma miragem.
E assim viveu dez anos, quatro filhos nos braços e um homem entre as pernas, esperando as cartas da segurança social no fim do mês, esperando as telenovelas, esperando que nessa noite o seu homem não tivesse vontade.
Ela já não tinha. Queria agora voltar atrás, regressar ao ponto de partida, fazer de conta que ele não a vira nesse dia. Apesar de não perceber de gramática, queria usar o terceiro condicional e recomeçar, reinventar o destino, dar o mel a outro.
Como não podia mudar o tempo, mudaria ela. Pintou os lábios da cor das ameixas suculentas, pôs fermento no trigo da pele e vestiu o vestido curto para que outros homens fizessem deslizar os olhos pelo cetim das pernas. A juventude interrompida bateu-lhe à porta do espelho do quarto e ela deixou-a entrar.
Neste Outono, um desejo serôdio desponta e o corpo dela quer ser Primavera outra vez.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
barquinho de papel
A realidade não passa de um barquinho de papel
forjado no fogo dos teus dedos.
Agarro-os,
o fogo,
os teus dedos
mais o barquinho,
e ponho tudo à deriva
no dorso da minha língua
de noite
a dois
que é como os barquinhos
mais gostam de navegar.
in, Tricotar o Tempo, Edição de Autor
forjado no fogo dos teus dedos.
Agarro-os,
o fogo,
os teus dedos
mais o barquinho,
e ponho tudo à deriva
no dorso da minha língua
de noite
a dois
que é como os barquinhos
mais gostam de navegar.
in, Tricotar o Tempo, Edição de Autor
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Labirinto
Quando olhamos para o outro não vemos quase nada. Ou melhor, vemos a superfície, vemos o rosto, os olhos, o andar, as expressões, as atitudes.
E presumimos que sabemos tudo sobre ele e o que vai dentro dele, o que pensa, o que chora, o que ri, o que deseja. Como uma esponja cega vamos absorvendo a imagem que o outro nos dá, tomamo-la por definitiva dia após dia, ano após ano. E dizemos que nem pensar, tal pessoa é minha amiga, punha as mãos no fogo, ele não era capaz disso, conheço-o como as minhas mãos, dava-lhe a minha camisa, íamos os dois até ao fim do mundo se fosse preciso. Ideias de unha com carne. Sangue com sangue. Duas faces da mesma moeda. A tudo isso juntamos os anos de convívio, o historial da relação, as confidências maiores, as conversas grandes como uma noite inteira.
E concluímos qualquer coisa forte. E temos certezas. E não nos enganamos.
O hábito é um animal de homens.
Mas não. Não é assim. Há sempre mais do que aquilo que parece. Há mais para lá da capa, quanto muito entramos no preâmbulo, com um pouco de sorte na introdução, com um golpe de génio temos acesso ao primeiro capítulo. O clímax passa-se dentro do hedonismo do cérebro, na luxúria da carne, no silêncio do grito, na nossa ausência. Uma pessoa é um livro grande de mais para ser lido de enfiada por outra. O futuro vem, às vezes, por causa da ansiedade, muito antes do presente e o passado é lá mais à frente, já depois do condicional. A linguagem da vida interior, cavernosa, lá no sítio onde se fermentam os sentimentos mais excelsos, tem códigos, sintaxe e semântica, inacessíveis ao mais comum dos amigos. A interpretação é complexa, não é verdadeiro/falso, escolha múltipla, composição de vinte linhas. O conhecimento das entranhas do outro requer um mestrado em multiplicidade e uma tese de doutoramento em labirintos. Coisa para duas vidas consagradas a Freud. Só nós nos conhecemos a nós próprios. Ou melhor, apesar da incompetência em assuntos existenciais ainda somos aqueles que melhor nos aproximamos de nós. Por vezes, num assomo de clarividência e de coragem, conseguimos alcançar a génese daquilo que somos e do material de que somos feitos. E umas vezes voltamos felizes e outras vezes não. A descoberta nem sempre é boa e motivadora de orgulho. Fechados a sete chaves e imunes até às bebedeiras mais aventureiras, há sítios onde ninguém consegue chegar. Por mais que se tente e por mais que nós, solícitos e solidários, queiramos levar amigos lá e eles também queiram ir, há um labirinto ali na verdadeira entrada de nós que faz perder os outros. São palcos de mil peças em simultâneo, personagens bizarras lambendo feridas, pássaros com raízes nos dorsos em vez de asas, caminhos cruzados, decisões abraçadas aos seus contrários, vazios que andam à roda, à roda, à roda.
O pior labirinto é aquele que é construído por nós. Fazemos dele um ninho de perdição. Palha a palha, pena a pena. Os dédalos exigem uma enorme capacidade de raciocínio para se sair deles. Quando tentamos, a emoção atravessa-se no caminho, despista-nos, ilude-nos e condena-nos a lá ficar para sempre.
O que nos conforta é que até os labirintos têm sítios onde nós gostamos de estar. Sozinhos, é claro.
E presumimos que sabemos tudo sobre ele e o que vai dentro dele, o que pensa, o que chora, o que ri, o que deseja. Como uma esponja cega vamos absorvendo a imagem que o outro nos dá, tomamo-la por definitiva dia após dia, ano após ano. E dizemos que nem pensar, tal pessoa é minha amiga, punha as mãos no fogo, ele não era capaz disso, conheço-o como as minhas mãos, dava-lhe a minha camisa, íamos os dois até ao fim do mundo se fosse preciso. Ideias de unha com carne. Sangue com sangue. Duas faces da mesma moeda. A tudo isso juntamos os anos de convívio, o historial da relação, as confidências maiores, as conversas grandes como uma noite inteira.
E concluímos qualquer coisa forte. E temos certezas. E não nos enganamos.
O hábito é um animal de homens.
Mas não. Não é assim. Há sempre mais do que aquilo que parece. Há mais para lá da capa, quanto muito entramos no preâmbulo, com um pouco de sorte na introdução, com um golpe de génio temos acesso ao primeiro capítulo. O clímax passa-se dentro do hedonismo do cérebro, na luxúria da carne, no silêncio do grito, na nossa ausência. Uma pessoa é um livro grande de mais para ser lido de enfiada por outra. O futuro vem, às vezes, por causa da ansiedade, muito antes do presente e o passado é lá mais à frente, já depois do condicional. A linguagem da vida interior, cavernosa, lá no sítio onde se fermentam os sentimentos mais excelsos, tem códigos, sintaxe e semântica, inacessíveis ao mais comum dos amigos. A interpretação é complexa, não é verdadeiro/falso, escolha múltipla, composição de vinte linhas. O conhecimento das entranhas do outro requer um mestrado em multiplicidade e uma tese de doutoramento em labirintos. Coisa para duas vidas consagradas a Freud. Só nós nos conhecemos a nós próprios. Ou melhor, apesar da incompetência em assuntos existenciais ainda somos aqueles que melhor nos aproximamos de nós. Por vezes, num assomo de clarividência e de coragem, conseguimos alcançar a génese daquilo que somos e do material de que somos feitos. E umas vezes voltamos felizes e outras vezes não. A descoberta nem sempre é boa e motivadora de orgulho. Fechados a sete chaves e imunes até às bebedeiras mais aventureiras, há sítios onde ninguém consegue chegar. Por mais que se tente e por mais que nós, solícitos e solidários, queiramos levar amigos lá e eles também queiram ir, há um labirinto ali na verdadeira entrada de nós que faz perder os outros. São palcos de mil peças em simultâneo, personagens bizarras lambendo feridas, pássaros com raízes nos dorsos em vez de asas, caminhos cruzados, decisões abraçadas aos seus contrários, vazios que andam à roda, à roda, à roda.
O pior labirinto é aquele que é construído por nós. Fazemos dele um ninho de perdição. Palha a palha, pena a pena. Os dédalos exigem uma enorme capacidade de raciocínio para se sair deles. Quando tentamos, a emoção atravessa-se no caminho, despista-nos, ilude-nos e condena-nos a lá ficar para sempre.
O que nos conforta é que até os labirintos têm sítios onde nós gostamos de estar. Sozinhos, é claro.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Fotografias
As fotografias são pedaços de mundo para o fotógrafo comer mais tarde.
Quando a rotina lhe tira o apetite de esplendor e sente mágoa de tudo ser repetitivo e sente míngua de vertigens e voragens, ele revela-as, coloca-as diante de si e mata a fome de trigais, crepúsculos e corpos de mulher.
O fotógrafo é uma formiga que acha e carrega instantes perdidos e miolos que se soltaram do fermento do universo. Ata-os aos molhos com os olhos e leva-os a tiracolo por um carreiro de passos solitários. Um fotógrafo inteiro é por natureza um desalinhado, um garimpeiro, um egoísta, um caçador furtivo. Descobre migalhas de fulgor onde mais ninguém as vê, rouba eternidades ao efémero, arranca ilusões das próprias raízes da realidade e filtra gritos até que só já haja silêncio e consegue que nesse mesmo silêncio de papel todos os gritos se ouçam.
Quando o fotógrafo revela revela-se, diz-nos com quem fez amor no orvalho, no areal, no restolho, na cama, no céu, na rua, na noite, à torreira de Beja. Dá-nos os mapas parados de todos os movimentos do mundo e mostra-nos que é com mecanismos de sensibilidade e luz que eles se animam. Numa fotografia vemos a corrente que leva a água, sopra-nos no rosto o vento que agita a árvore, limpamos o pó que cobre a memória, fazemos festas ao cão que dorme no nosso contentamento de o termos, choramos a dor preta da morte, abrimos um postigo para entrar o fresco, tacteamos a capa do livro que a muito custo sustém palavras inquietas, sentimos o arrepio do deleite em curvas de carne, brincamos com a infância que volta, olhamos o sol que se mete no mar para aquecer os peixes durante a noite, perscrutamos ombros e cabelos a contraluz, seguramos um crucifixo que benze um peito redondamente pecador, provamos uma maçã suculenta que nasce do ventre de Eva, lembramos o amor que se perdeu quando lhe dissemos que era amor, perpetuamos a amizade num abraço, vemos o passado a olhar-nos de frente e a perguntar-nos se valeu a pena termos chegado aqui, seguramos na mão as chamas de um fogo a dois que o tempo congelou em temperaturas de papel acetinado-mate, pressentimos que um filho, uma filha, à medida que se separa de nós e enceta a viagem da vida, mais perto vai estando da essência do nosso afecto.
Uma fotografia é um beijo dado com os olhos. É um furto qualificado, uma dentada no quotidiano, um poema que a vida diz a todo o instante, mas que só alguns conseguem sentir vividamente. O fotógrafo é o tradutor desses poemas vivos, é o intérprete dessa magnifica linguagem de firmamentos e de sorrisos.
E uma fotografia de uma mulher bonita é um beijo dado com uma língua de aumentar que faz zoom corpo adentro da coisa.
Quando a rotina lhe tira o apetite de esplendor e sente mágoa de tudo ser repetitivo e sente míngua de vertigens e voragens, ele revela-as, coloca-as diante de si e mata a fome de trigais, crepúsculos e corpos de mulher.
O fotógrafo é uma formiga que acha e carrega instantes perdidos e miolos que se soltaram do fermento do universo. Ata-os aos molhos com os olhos e leva-os a tiracolo por um carreiro de passos solitários. Um fotógrafo inteiro é por natureza um desalinhado, um garimpeiro, um egoísta, um caçador furtivo. Descobre migalhas de fulgor onde mais ninguém as vê, rouba eternidades ao efémero, arranca ilusões das próprias raízes da realidade e filtra gritos até que só já haja silêncio e consegue que nesse mesmo silêncio de papel todos os gritos se ouçam.
Quando o fotógrafo revela revela-se, diz-nos com quem fez amor no orvalho, no areal, no restolho, na cama, no céu, na rua, na noite, à torreira de Beja. Dá-nos os mapas parados de todos os movimentos do mundo e mostra-nos que é com mecanismos de sensibilidade e luz que eles se animam. Numa fotografia vemos a corrente que leva a água, sopra-nos no rosto o vento que agita a árvore, limpamos o pó que cobre a memória, fazemos festas ao cão que dorme no nosso contentamento de o termos, choramos a dor preta da morte, abrimos um postigo para entrar o fresco, tacteamos a capa do livro que a muito custo sustém palavras inquietas, sentimos o arrepio do deleite em curvas de carne, brincamos com a infância que volta, olhamos o sol que se mete no mar para aquecer os peixes durante a noite, perscrutamos ombros e cabelos a contraluz, seguramos um crucifixo que benze um peito redondamente pecador, provamos uma maçã suculenta que nasce do ventre de Eva, lembramos o amor que se perdeu quando lhe dissemos que era amor, perpetuamos a amizade num abraço, vemos o passado a olhar-nos de frente e a perguntar-nos se valeu a pena termos chegado aqui, seguramos na mão as chamas de um fogo a dois que o tempo congelou em temperaturas de papel acetinado-mate, pressentimos que um filho, uma filha, à medida que se separa de nós e enceta a viagem da vida, mais perto vai estando da essência do nosso afecto.
Uma fotografia é um beijo dado com os olhos. É um furto qualificado, uma dentada no quotidiano, um poema que a vida diz a todo o instante, mas que só alguns conseguem sentir vividamente. O fotógrafo é o tradutor desses poemas vivos, é o intérprete dessa magnifica linguagem de firmamentos e de sorrisos.
E uma fotografia de uma mulher bonita é um beijo dado com uma língua de aumentar que faz zoom corpo adentro da coisa.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O pastor
No montado, o pastor guarda o silêncio todo na boca. As palavras ditas e os outros ruídos do mundo não passam por ali que o pastor não deixa. Ali, só quem passa é a brisa e mesmo essa vem já ao fim da tarde, fresca, fugida do sol, para pentear e endireitar a erva que o gado pisou.
Para além de silêncio e gado, o pastor também guarda o tempo. Aliás, é ele que tem a chave do mecanismo do devir. É ele que abre as manhãs. Ao acender o primeiro cigarro, puxa fogo ao sol para que este nasça em pequenos gritos de luz. É ele que acorda o balido das ovelhas, as asas dos pássaros, a côdea do pão, a humidade das rãs, a rijeza do cajado, o rabo dos cães, a viscosidade dos lagartos, o canto dos pintassilgos, o veludo das borboletas, as sombras das árvores. É ele que cria a fome de talhadas de toucinho e copos de vinho, que convida a folga para dentro do corpo depois de almoço, que entrega um mapa da erva boa ao rebanho, que traça o plano de voo de um falcão, que aquece a água da barragem, que, a toques de bordão, vai fazendo girar a terra toda, como um carrossel feito de ponteiros e doze números, até o sol, pintado da cor das laranjas de umbigo, se esconder a pouco e pouco num buraco ali para os lados de Garvão. Para quem não sabe, á ali que o astro dorme. É o pastor que com o isqueiro acende as estrelas, os olhos das corujas, o sono das galinhas, o medo do escuro, o descanso dos cães, o desassossego dos ratos.
A pelica é um ninho de andorinhas, um refúgio de pardais pequenos, uma toca de coelhos vadios, uma malhada de borregos pequenos, a casa do coração.
O pastor é um farol guiando ribeiros e garças, uma guarita onde os trigais descansam do vento, um cristo-rei de braços fechados abençoando cerros e planuras.
O cajado é a trave mestra do mundo. Sem ele a pastagem era invertebrada. É ele a espinha dorsal do tempo, a viga de azinho que suporta o horizonte, o pau que sustenta as nuvens, que aguenta o azul, que fura o céu para fazer chover, que é fálico porque a terra à vezes arredonda de mais. O cajado é o general dos cães. Sem ele, os cães eram soldados insurrectos e as ovelhas talvez perdessem a sua obediência de lã.
Um pastor sem cajado é um eunuco conquistando mulheres.
À noite, a Estrela Polar guia-lhe a mão - mais o outro cajado que guarda o desejo - pela galáxia da pele e só a pára quando o corpo todo atinge o céu. No campo há flores que são frutos das sementes que vêm de dentro dele. São pequeninas flores verde-fogo que crescem à beira dos poços da alma.
Os seus olhos campaniços são dois camaleões poisados na terra. Ora amarelo-pó no verão, ora castanho-torrão no outono, ora cinzento-água no inverno, ora verde-erva na primavera.
O rebanho entretém-se numa estratégia de ruminação de erva. Os cães lambem uma ferida. O pastor rumina os pensamentos. São todos intérpretes de um destino que uma cegonha anuncia nas asas quando voa.
Eu passo na estrada.
O pastor acena-me e eu desligo o rádio.
Também eu preciso de sentir o sabor do silêncio na minha boca.
Para além de silêncio e gado, o pastor também guarda o tempo. Aliás, é ele que tem a chave do mecanismo do devir. É ele que abre as manhãs. Ao acender o primeiro cigarro, puxa fogo ao sol para que este nasça em pequenos gritos de luz. É ele que acorda o balido das ovelhas, as asas dos pássaros, a côdea do pão, a humidade das rãs, a rijeza do cajado, o rabo dos cães, a viscosidade dos lagartos, o canto dos pintassilgos, o veludo das borboletas, as sombras das árvores. É ele que cria a fome de talhadas de toucinho e copos de vinho, que convida a folga para dentro do corpo depois de almoço, que entrega um mapa da erva boa ao rebanho, que traça o plano de voo de um falcão, que aquece a água da barragem, que, a toques de bordão, vai fazendo girar a terra toda, como um carrossel feito de ponteiros e doze números, até o sol, pintado da cor das laranjas de umbigo, se esconder a pouco e pouco num buraco ali para os lados de Garvão. Para quem não sabe, á ali que o astro dorme. É o pastor que com o isqueiro acende as estrelas, os olhos das corujas, o sono das galinhas, o medo do escuro, o descanso dos cães, o desassossego dos ratos.
A pelica é um ninho de andorinhas, um refúgio de pardais pequenos, uma toca de coelhos vadios, uma malhada de borregos pequenos, a casa do coração.
O pastor é um farol guiando ribeiros e garças, uma guarita onde os trigais descansam do vento, um cristo-rei de braços fechados abençoando cerros e planuras.
O cajado é a trave mestra do mundo. Sem ele a pastagem era invertebrada. É ele a espinha dorsal do tempo, a viga de azinho que suporta o horizonte, o pau que sustenta as nuvens, que aguenta o azul, que fura o céu para fazer chover, que é fálico porque a terra à vezes arredonda de mais. O cajado é o general dos cães. Sem ele, os cães eram soldados insurrectos e as ovelhas talvez perdessem a sua obediência de lã.
Um pastor sem cajado é um eunuco conquistando mulheres.
À noite, a Estrela Polar guia-lhe a mão - mais o outro cajado que guarda o desejo - pela galáxia da pele e só a pára quando o corpo todo atinge o céu. No campo há flores que são frutos das sementes que vêm de dentro dele. São pequeninas flores verde-fogo que crescem à beira dos poços da alma.
Os seus olhos campaniços são dois camaleões poisados na terra. Ora amarelo-pó no verão, ora castanho-torrão no outono, ora cinzento-água no inverno, ora verde-erva na primavera.
O rebanho entretém-se numa estratégia de ruminação de erva. Os cães lambem uma ferida. O pastor rumina os pensamentos. São todos intérpretes de um destino que uma cegonha anuncia nas asas quando voa.
Eu passo na estrada.
O pastor acena-me e eu desligo o rádio.
Também eu preciso de sentir o sabor do silêncio na minha boca.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Frustrações e Compensações
Vivemos entre estes dois mundos. Um pé num, o outro pé no outro. E entre os pés, a meio de nós, há um buraco fundo, um precipício negro, e o objectivo da nossa vida, ainda que não o saibamos, é não cairmos para dentro dele.
E cada um, à sua maneira, agarra-se às margens do abismo como pode. Inventando pontes, sonhando acordado, amortecendo a queda, tomando comprimidos ou escrevendo.
Assim que começamos a ter noção da relação que há entre o presente, o passado e o futuro, logo que começamos a ter memória e expectativas, papéis a desempenhar, supostas honras a defender, ideias de metas e de adversários, dá-se início ao suplício. Aproveitando o instinto de sobrevivência e os valores que nos são metidos no corpo, misturados com a sopa, a missa e as aulas, logo tratamos de separar o bem do mal, a rosa dos espinhos, a carne do osso, deus do diabo, os amigos dos inimigos, a dor do prazer. Ou seja, tratamos de abrir crateras, de erguer muros, traçar fronteiras, afirmar descriminações, para pensarmos que temos os dois pés bem assentes no chão. No nosso chão, esse confortável e cínico quintal sagrado, onde crescem carinhos juntamente com a erva daninha do egoísmo e da presunção.
E, atados aos carris onde nos puseram, alucinados nesse caminho que é a vida em sociedade, nessa disputa, não nos apercebemos que por causa das frustrações andamos, diariamente, a comer compensações às talhadas como quem engole colheradas de óleo de fígado de bacalhau. Para fazer bem aos olhos. Mas nós continuamos a não conseguir ver o que está para lá do espelho de enganos. Continuamos a não conseguir ver que vivemos entre esses dois mundos, num equilíbrio feito de faz-de-conta.
O que é preciso é ir em frente. Compensando, compensando.
Inventamos realidades. Criamos cenários. Ditamos regras. Prometemos éter. Despachamos. Punimos. Protegemos. Bebemos para esquecer. Temos poder. Altas cilindradas. Televisores de não sei quantas polegadas. Filhos com não sei quantas namoradas. Mandamos. Exigimos. Regressamos. Trememos de excitação se tivermos Dr. antes do nome. Pomos e dispomos. Impamos com os nossos apelidos de relevo. Apontamos soluções. Corrigimos. Queremos ser o topo da pirâmide. O Rei-Sol, Ícaro, Fénix. Isto tudo, como já sabemos, feito só com um dos pés. O outro, esse pé frágil, esse calcanhar de Aquiles, está a pisar terra traiçoeira. Essa terra chama-se Eu, chama-se inquietação, chama-se o nosso nome, chama-se memória, chama-se consciência. E como não queremos que vejam este pé enjeitado e escorregadio, inventámos aquela expressão de fazer as coisas com uma perna às costas.
P.S. Eu é que já não sei com que pé escrevi esta crónica.
E cada um, à sua maneira, agarra-se às margens do abismo como pode. Inventando pontes, sonhando acordado, amortecendo a queda, tomando comprimidos ou escrevendo.
Assim que começamos a ter noção da relação que há entre o presente, o passado e o futuro, logo que começamos a ter memória e expectativas, papéis a desempenhar, supostas honras a defender, ideias de metas e de adversários, dá-se início ao suplício. Aproveitando o instinto de sobrevivência e os valores que nos são metidos no corpo, misturados com a sopa, a missa e as aulas, logo tratamos de separar o bem do mal, a rosa dos espinhos, a carne do osso, deus do diabo, os amigos dos inimigos, a dor do prazer. Ou seja, tratamos de abrir crateras, de erguer muros, traçar fronteiras, afirmar descriminações, para pensarmos que temos os dois pés bem assentes no chão. No nosso chão, esse confortável e cínico quintal sagrado, onde crescem carinhos juntamente com a erva daninha do egoísmo e da presunção.
E, atados aos carris onde nos puseram, alucinados nesse caminho que é a vida em sociedade, nessa disputa, não nos apercebemos que por causa das frustrações andamos, diariamente, a comer compensações às talhadas como quem engole colheradas de óleo de fígado de bacalhau. Para fazer bem aos olhos. Mas nós continuamos a não conseguir ver o que está para lá do espelho de enganos. Continuamos a não conseguir ver que vivemos entre esses dois mundos, num equilíbrio feito de faz-de-conta.
O que é preciso é ir em frente. Compensando, compensando.
Inventamos realidades. Criamos cenários. Ditamos regras. Prometemos éter. Despachamos. Punimos. Protegemos. Bebemos para esquecer. Temos poder. Altas cilindradas. Televisores de não sei quantas polegadas. Filhos com não sei quantas namoradas. Mandamos. Exigimos. Regressamos. Trememos de excitação se tivermos Dr. antes do nome. Pomos e dispomos. Impamos com os nossos apelidos de relevo. Apontamos soluções. Corrigimos. Queremos ser o topo da pirâmide. O Rei-Sol, Ícaro, Fénix. Isto tudo, como já sabemos, feito só com um dos pés. O outro, esse pé frágil, esse calcanhar de Aquiles, está a pisar terra traiçoeira. Essa terra chama-se Eu, chama-se inquietação, chama-se o nosso nome, chama-se memória, chama-se consciência. E como não queremos que vejam este pé enjeitado e escorregadio, inventámos aquela expressão de fazer as coisas com uma perna às costas.
P.S. Eu é que já não sei com que pé escrevi esta crónica.
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