segunda-feira, 5 de julho de 2010

Que segredos
deixa a noite sobre o restolho
quando dele se levanta?

domingo, 4 de julho de 2010

Uma borboleta
de asas mortas
voou.

Foi num poema
que o vento lhe fez.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

reviver o passado em ourique

Ao fim da tarde, enquanto o sol esmorecia, eles irrompiam da madrugada da memória. Eram searas de saudade à espera que a meiga foice dos sorrisos as viessem ceifar e na terra plana dos corações mais não houvesse que uma felicidade absolutamente transparente.

Ao princípio daquela noite havia um alvor de lua emocionada crescendo nos peitos. E todos, uns nómadas, outros sedentários, estavam sedentos de juntar o passado ao presente. Para perceber como chegaram até ali tantos anos depois.

Ao crepúsculo havia uma aurora de abraços e carinhos e rugas bonitas e cabelos brancos que brincavam na noite como meninos.

Havia anos que não se viam. Alguns tinham abalado e levado tudo com eles. Uns levaram o corpo, outros a família, uns tantos a necessidade, quase todos os sonhos. Mas não levaram as raízes, o calor do ninho, a matriz da cal. Outros que só cá tinham estado um, dois anos, haviam partido ébrios de paixão por este lugar onde as planícies vêm abraçar as serras.

A vida é um fado que demora, que se enleia na tristeza dos dias, é uma coisa que se adia, que nos vai afastando da essência da nossa identidade. Mas, por mais que tentemos negar, há uma evidência incontornável e simples: o ser humano precisa essencialmente de ternura, de um sorriso, de compreensão, de pertença.

Voltaram agora ao sítio onde foram felizes. Chegaram dos labirintos da existência, atravessaram abismos, experimentaram caminhos. Diferentes por fora. Mais gordos, mais carecas, mais velhos, mais grisalhos, mais cansados. Mas felizes. Às vezes, o futuro é o passado. As vozes eram muitas e vibrantes porque os corações estavam perto das bocas e os olhos brilhantes eram o dobro das vozes e cada olhar tinha dois corações unidos pelo sorriso.

Foi terna a noite. Não há muitas situações na vida que emocionalmente superem o reencontro de amigos sentados a uma mesa comendo emoções e bebendo das palavras uns dos outros.

No lusco-fusco havia uma claridade absoluta nas almas que vieram voar neste céu como se fossem pássaros que regressam felizes às primaveras das suas vidas.

Sábado, 19 de Junho de 2010. Primeiro Encontro de Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Agrupamento Vertical de Ourique.

Nós somos o que fomos.

in Correioalentejo, 25 de Junho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

É só para dizer
que
um poema não sabe
do raciocínio das coisas

que
cada sonho se agarra
à vida como pode

que
cada procura
é uma fome na alma

que
uma linha recta
não sabe do delírio de uma curva

que
eu ainda pouco sei
de mim

terça-feira, 8 de junho de 2010

A ternura dos quarenta
é uma caixa de sapatos
com fotografias antigas lá dentro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Poemas

Quando se está apaixonado,
os poemas são garrafas de soro
pingando
até a pessoa recuperar
os sentidos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os espelhos

Os espelhos são cavalos de vidro
a galope
dando coices no corpo.