terça-feira, 10 de agosto de 2010
A ternura dos quarenta
cruzadas que se cruzam na vida
e delas não se encontra o significado
absoluto, apenas sinónimos incapazes de
pôr um ponto final
na indefinição,
é uma gata a dormitar
nos joelhos quebrados,
é um copo de vinho vazio a
enfiar uma rolha nas pálpebras,
é um fogo a arder devagarinho
até que a cinza dê por finda a noite.
O corpo é uma jangada de ossos
que o trouxe até aqui.
O caminho foi como foi.
A viagem foi coisa que ele não comandou,
mas nunca aceitou que a razão
fosse uma âncora que parasse o coração.
Agora atracou em segurança.
Mas se os pássaros que regressam
o levassem de volta, ele ia à procura do princípio
e levaria as algibeiras da alma cheias de desejo
para dar de comer às pombas
que se recusaram a poisar nas suas mãos
vazias de milho.
A hipófise já não é uma hipótese,
é apenas uma cigarra muda.
As hormonas são formigas sem fome
que perderam o carreiro e morrem antes de chegar ao umbigo.
O tempo útil de emoções foi tão curto.
Perderam-se horas
e dias
e anos matutando, matutando,
os egoísmos silvando na noite como cobras frias,
esperando que a mão do outro
viesse,
com dedos de sol,
enxugar a tristeza do rosto,
esperando que os braços do outro
fossem uma ponte
estendida
entre as almofadas
para não morrerem afogados
na fundura do quarto.
E entretanto a traça da idade veio
e roeu as golas do ânimo.
A libido está pendurada num cabide
e tem os forros cheios de bolas de naftalina
para sobreviver à oxidação do desejo.
In Maçã de Adão
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,e o que nos ficou não chegapara afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio. (…)
P.S. Você, que é ele ou ela, vá acabar de ler o poema.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
A espuma dos dias
quinta-feira, 1 de julho de 2010
reviver o passado em ourique
Ao fim da tarde, enquanto o sol esmorecia, eles irrompiam da madrugada da memória. Eram searas de saudade à espera que a meiga foice dos sorrisos as viessem ceifar e na terra plana dos corações mais não houvesse que uma felicidade absolutamente transparente.
Ao princípio daquela noite havia um alvor de lua emocionada crescendo nos peitos. E todos, uns nómadas, outros sedentários, estavam sedentos de juntar o passado ao presente. Para perceber como chegaram até ali tantos anos depois.
Ao crepúsculo havia uma aurora de abraços e carinhos e rugas bonitas e cabelos brancos que brincavam na noite como meninos.
Havia anos que não se viam. Alguns tinham abalado e levado tudo com eles. Uns levaram o corpo, outros a família, uns tantos a necessidade, quase todos os sonhos. Mas não levaram as raízes, o calor do ninho, a matriz da cal. Outros que só cá tinham estado um, dois anos, haviam partido ébrios de paixão por este lugar onde as planícies vêm abraçar as serras.
A vida é um fado que demora, que se enleia na tristeza dos dias, é uma coisa que se adia, que nos vai afastando da essência da nossa identidade. Mas, por mais que tentemos negar, há uma evidência incontornável e simples: o ser humano precisa essencialmente de ternura, de um sorriso, de compreensão, de pertença.
Voltaram agora ao sítio onde foram felizes. Chegaram dos labirintos da existência, atravessaram abismos, experimentaram caminhos. Diferentes por fora. Mais gordos, mais carecas, mais velhos, mais grisalhos, mais cansados. Mas felizes. Às vezes, o futuro é o passado. As vozes eram muitas e vibrantes porque os corações estavam perto das bocas e os olhos brilhantes eram o dobro das vozes e cada olhar tinha dois corações unidos pelo sorriso.
Foi terna a noite. Não há muitas situações na vida que emocionalmente superem o reencontro de amigos sentados a uma mesa comendo emoções e bebendo das palavras uns dos outros.
No lusco-fusco havia uma claridade absoluta nas almas que vieram voar neste céu como se fossem pássaros que regressam felizes às primaveras das suas vidas.
Sábado, 19 de Junho de 2010. Primeiro Encontro de Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Agrupamento Vertical de Ourique.
Nós somos o que fomos.
in Correioalentejo, 25 de Junho de 2010