terça-feira, 14 de setembro de 2010

Setembro

Gosto de Setembro porque em Setembro começa o declínio da luz. E luz a mais apodrece a poesia. Come-lhe os ossos. Adormece-a. Enfraquece-lhe a alma pungente. Engana-a com tanta luminosidade. Quanto muito escrevem-se umas linhas sobre gaivotas rasgando o azul. Ou sobre um pôr-do-sol numa falésia. Ou sobre um corpo bronzeado de mulher a arder nos olhos de um homem. Pão com melão no Verão. E pouco mais. De Verão as palavras não se endireitam. São coisas moles. Preguiçosas. Dormentes. Sentadas em esplanadas. Assadas no carvão. Deitadas na praia. São sons que se arrastam com areia nos pés. Enfiadas em chinelos de praia, riem-se e pronto.
Não têm angústia, não têm nada. É tempo a mais de transparência.
Mas em Setembro começo a ter esperança outra vez, pois o sol é um balão cor de laranja que morre espetado nos picos dos figos da Índia. Em Setembro já há mais noite e por isso começo a ver melhor o que está dentro do ocaso da vida. E as palavras moribundas, as palavras secas, as palavras bronzeadas, as palavras com restos de camarão cozido entre os dentes, pressentem o definhamento da claridade. E ficam felizes. Aliviadas. Pressentem que as nuvens hão-de vir e que depois virá o vento e depois as formigas de asa e depois a chuva e depois o frio e depois as camisolas de lã e depois as lareiras acesas e depois as castanhas assadas e depois as ruas sem ninguém e depois o vinho tinto e depois o ânimo e depois as conversas em que as palavras são sopas de açorda temperadas com coentros e um dente de poesia. Até às tantas.
Em Setembro, depois de sair de um deserto de sol, apetece-me arrumar a vida. Apetece-me pensar outra vez, recomeçar a sentir a fragilidade da existência, regressar à dúvida, cimentar ilusões.
Apetece-me regressar à rotina, preparar a lenha de azinho, fechar as janelas, calçar pantufas, voltar a ler antes de dormir.
Em Setembro já há um prenúncio de romãs doces na minha boca e por isso não me importo que a luz se desprenda das árvores e morra.
Texto publicado no jornal CorreioAlentejo

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O desejo é um fruto
que apetece comer verde
num tempo qualquer.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A ternura dos quarenta

A ternura dos quarenta é um jornal aberto nas palavras
cruzadas que se cruzam na vida
e delas não se encontra o significado
absoluto, apenas sinónimos incapazes de
pôr um ponto final
na indefinição,
é uma gata a dormitar
nos joelhos quebrados,
é um copo de vinho vazio a
enfiar uma rolha nas pálpebras,
é um fogo a arder devagarinho
até que a cinza dê por finda a noite.
O corpo é uma jangada de ossos
que o trouxe até aqui.
O caminho foi como foi.
A viagem foi coisa que ele não comandou,
mas nunca aceitou que a razão
fosse uma âncora que parasse o coração.
Agora atracou em segurança.
Mas se os pássaros que regressam
o levassem de volta, ele ia à procura do princípio
e levaria as algibeiras da alma cheias de desejo
para dar de comer às pombas
que se recusaram a poisar nas suas mãos
vazias de milho.
A hipófise já não é uma hipótese,
é apenas uma cigarra muda.
As hormonas são formigas sem fome
que perderam o carreiro e morrem antes de chegar ao umbigo.
O tempo útil de emoções foi tão curto.
Perderam-se horas
e dias
e anos matutando, matutando,
os egoísmos silvando na noite como cobras frias,
esperando que a mão do outro
viesse,
com dedos de sol,
enxugar a tristeza do rosto,
esperando que os braços do outro
fossem uma ponte
estendida
entre as almofadas
para não morrerem afogados
na fundura do quarto.
E entretanto a traça da idade veio
e roeu as golas do ânimo.
A libido está pendurada num cabide
e tem os forros cheios de bolas de naftalina
para sobreviver à oxidação do desejo.

In Maçã de Adão

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Adeus

Quando eles se conheceram, estava calor e a noite tinha um decote grande que deixava ver as estrelas todas.E estava quente o banco de pedra onde ela, com olhos inquietos de ter chegado agora à vila, se sentava. Agitava-se como se fosse uma pequenina brisa perdida do resto do rebanho do tempo, e os pés, extremidades de carne de uma mini-saia de ganga, eram duas âncoras espetadas no cimento do jardim. Aqueles olhos não eram dali e aquele rosto nunca morara naquelas ruas.Ela era jovem, daquela idade em que o tempo põe os corpos no seu molde e os arredonda e lhes dá uma textura de maçã. E não nos esqueçamos que era Verão e que a noite não conseguia arrefecer o calor que o dia lhe deixara. E ele, fazedor de palavras belas e domador de temperaturas, foi ter com ela e levou-lhe palavras frescas nos lábios. E com elas, quando as disse entre dentes, borrifou-lhe o rosto, o pescoço, os ombros, os joelhos e os olhos estrangeiros. E ela arrepiou-se com aquela mistura espessa de ar e de letras. Eram adjectivos e verbos que ele lhe tinha dito e que voavam já indomáveis no céu do seu coração.Dali a nada, os olhos dele e os olhos dela eram já quatro pássaros castanhos poisados num fio de espanto. Tinham acabado de se conhecer, mas só a vergonha e a esplanada cheia lhes punha algemas nas mãos, açaimes nos lábios e nas línguas. Nenhum deles tinha sentido nada assim. As suas peles só tinham sido objecto de carícias da família, beijos de aniversário, de boa noite, de até amanhã, de despedida, nunca de desejo, nunca abaixo do queixo. Mas agora nascia ali um incontrolável apetite vertical de saliva e suor. Para quem não sabe, estas coisas acontecem assim de repente, na noite, por causa de uma aliança entre o brilho da lua e o silêncio das osgas.Assim viveram durante anos, achando alimento no estarem juntos, lembrando o passado nas linhas da testa, vivendo o presente na água das bocas, preparando o futuro na fundura dos olhos. As noites eram empecilhos, necessidades parvas de dormir inventadas por quem não sabe o que é estar apaixonado. A escola um desperdício de horas passadas a conhecer nada quando já se tem tudo. Os dois eram um par de pleonasmos, um casal de redundâncias. Se um dava um ai, logo o outro fazia eco.Respiravam-se um ao outro, pois senão morriam.Mas um dia, um deles, não se sabe se terá sido ela ou se terá sido ele, deixou cair o olhar para o chão porque descobriu que a paixão era apenas um urso de peluche que dormia aconchegado entre quatro lábios. E ele, ou ela, não sabemos, aflito, quis apanhar o olhar e o peluche com as mãos, mas o outro já não deixou. Já não era capaz de mais. Estavam moídos, moribundos. A paixão matara-os para o mundo. Cada um tinha-se tornado o espelho do outro e o espelho partira-se com tanto beijo e tanta obsessão.Um destes dias, um deles, não digo se foi ele ou ela, levava o poema “Adeus” de Eugénio de Andrade debaixo do braço.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,e o que nos ficou não chegapara afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio. (…)
P.S. Você, que é ele ou ela, vá acabar de ler o poema.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Cansadas do dia,
as palavras descansam
nos braços ternos da noite.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A espuma dos dias

Que profundidade tem a nossa vida? Ancoramos as nossas decisões no aprumo da verticalidade ou pelo contrário roçamos a superfície da vanglória? Será que somos feitos de substância ou somos apenas embrulhos luzidios? Quantas palavras que valham a pena dizemos nós durante um dia inteiro? O que é que nós percebemos desta coisa intrincada que é a vida, para podermos andar com a boca cheia de verdades absolutas, debitando conclusões, pondo pontos finais? Já medimos os nossos horizontes? Vão eles para além do voo de um pardal tenro? Que viagens já fizemos para perceber o outro lado, o reverso, o inverso? O que trazemos das viagens? Bugigangas? Um bronzeado? Chega-nos o quintal onde plantamos o cinismo? Achamos que somos o centro do mundo? Que temos sangue azul? Que somos iluminados, dinásticos, inquestionáveis? Que os outros são feitos de trapos? Os outros só servem para satisfazer os nossos egoísmos? Os outros são escadas, atalhos, ocasiões, oportunidades, saldos? Serão empecilhos se tiverem uma opinião diferente? Serão incapazes se não nos derem primazia? Quantos dos livros que já lemos serviram de alguma coisa, o que é que aprendemos com eles? Aprendemos o quê nos livros incontornáveis? O nome das personagens, o título, o autor? Ou conseguimos através deles chegar à essência que nos mudou para melhor? Quantas vezes mergulhamos nós na obscuridade do nosso ser para tentarmos perceber o que somos, de que somos feitos? Quantas vezes aceitamos os nossos fantasmas, as nossas fraquezas, as nossas contradições? Quantas vezes somos sinceros quando à noite pomos a consciência nos nossos colos cansados? Quantas vezes nos olhámos ao espelho e nos chamámos de patéticos? Será que não há um dia em que, finalmente, assumamos a nossa condição de quebrantáveis? Será que não há um dia em que, finalmente, deixemos de julgar as acções dos outros à luz da nossa mesquinhez? Durante dias, anos, andamos armados em espertos a distribuir poses, a conspirar, a gastar rios de palavras. Levamos uma vida a fio a olhar para o umbigo e estupidamente pensamos que estamos a fazer alguma coisa de jeito. Vivemos à superfície. O que dizemos são salpicos, farrapos sem importância nenhuma. Emproados, vamos apenas existindo na espuma dos dias. A memória colectiva não se lembrará de nós. Nada fizemos por isso.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Que segredos
deixa a noite sobre o restolho
quando dele se levanta?